Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Pimbolim é matraquilho

por José Pedro Almeida, em 10.04.14

pimbolim é matraquilho (internet slang by mushir)

 

 

Depois do vigoroso libelo da apresentadora Iva Domingues, que no Verão passado proclamou na sua página de Facebook que jamais aderiria ao Acordo (“Não, não vou seguir o Acordo Ortográfico! Vou continuar a dizer morto e não matado, pago e não pagado!”), um pequeno episódio doméstico veio reforçar, esta semana, o meu cepticismo quanto à sua eficácia. O episódio que relato não atingirá, porventura, o patamar de erudição a que a coruscante invectiva de DOMINGUES, Iva (op. cit.) elevou a querela ortográfica. Como se sabe, as redes sociais são espaços elitistas, onde pontificam poemas dadaístas do quilate de “atao puto mekié ta td ou k?”, a cujo esplendor não ouso chegar; mas a língua pertence a todos e (é o caso) até um jagunço como eu pode contribuir. E chega de preâmbulos: vamos à historieta.

 

Recém-chegada a Portugal, uma amiga carioca (contou-mo ela, ruborizada) foi vítima de um equívoco transatlântico que evidencia a inutilidade do Acordo. Refastelada num café com amigos portugueses, repara, ao remexer na carteira para pagar, que já dispõe de pouco dinheiro até ao final do mês. Os outros tagarelam em volta, alheios a dramas neo-realistas. Ouve-se, então, da parte dela o imprudente desabafo de que “o que eu queria mesmo era fazer um bico”; de súbito, a charla interrompe-se num silêncio embaraçado, alguém balbucia um conselho hesitante (“tens tempo para isso, a sério, não te precipites”); e, ainda ninguém se recompôs, já a resposta desconcerta: “eu sei, mas é que precisava mesmo do dinheiro”. O equívoco só se desfez quando, após gaguejos mútuos, se esclareceu que a expressão brasileira “fazer um bico” corresponde, em português, a “fazer um biscate” - e não a um coloquialismo eufemístico para sexo oral.

 

Por mais Acordos que se gizem, estas diferenças idiomáticas (e mesmo lexicais) frustrarão sempre as tentativas de “uniformização da língua”. Mas espanta-me que tantos se empenhem em regular a ortografia lusófona e ninguém se preocupe em estabelecer convenções onde essa bagunça ortográfica é mais notória: a Internet. Se o século XV assistiu ao advento do movimento lolardo, o século XXI assistiu à proliferação de lolardos um pouco por toda a Internet; é uma nova estirpe de lolardos, que já não pretende arreliar a Igreja, mas que garatuja o acrónimo “lol” a torto e a direito, em tudo o que se assemelhe a chalaça. E já se vislumbram dissensões doutrinárias. Há lolardos que riem com “lol” e “ahah”, “jejeje” e “rsrsrs”; há larachas que merecem um “lol” circunspecto e outras um “LOL” esfuziante; e ninguém sabe se é socialmente aceitável recorrer ao “muahahah” – não denotará uma excitação indigna de pater familias? Os próprios emoticons, uns hieróglifos que se servem de sinais de pontuação para desenhar carantonhas, são polémicos: como interpretar risos dimórficos como “:)” e “XD”? Impossibilidade da comunicação, o tanas: do que precisamos é de um glossário. Basta que alguém se disponha a fazer um bico - perdão, um biscate - e preencha a lacuna.

 

(versão da crónica publicada na revista LER, secção 15/25)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:35